Eulália João é uma jovem de 21 anos formada em agronomia. Ela mora no bairro de Nacurrare, distrito de Murrupule, província de Nampula. Eulália cresceu em uma comunidade onde os casamentos precoces eram comuns, levando muitas meninas a abandonar os estudos e casar muito jovens. No entanto, Eulália desafiou as expectativas e decidiu perseverar em seu objetivo de obter uma educação e construir um futuro promissor. Aos 15 anos, ela engravidou e, devido às circunstâncias, seus pais decidiram que era hora de ela se casar. Ela se casou com um rapaz de 16 anos. Apesar da relutância, Eulália não teve escolha a não ser aceitar os desejos da família, sendo obrigada a abandonar a escola; na época, ela cursava o 7º ano.
Mesmo grávida, ela estava determinada a continuar estudando como forma de garantir um futuro brilhante para sua família; no entanto, após dar à luz, teve que interromper os estudos por um ano.
Após esse período, ela decidiu que era hora de voltar para a escola. No entanto, teve que enfrentar inúmeras dificuldades e obstáculos, pois, por um lado, viajava longas distâncias e, por outro, seu marido não concordava com os sonhos de Eulália e não queria que ela voltasse a estudar, motivo pelo qual às vezes rasgava seus cadernos como forma de obrigá-la a abandonar os estudos.
Apesar da pressão e da resistência do seu parceiro, ela continuou os estudos, encontrando apoio nos pais, em ativistas e em professores que a encorajaram a seguir os seus sonhos e a nunca desistir dos seus ideais.
Com o tempo, Eulália conseguiu concluir o ensino médio, apesar das dificuldades decorrentes da violência doméstica, econômica e verbal perpetrada por seu companheiro, e das traições que chegaram a colocar sua filha em risco, devido às feridas em seu seio que a impediam de amamentá-la. Mesmo assim, Eulália demonstra gratidão ao companheiro pelo apoio financeiro e por ter trabalhado arduamente para garantir que a família tivesse o que comer.
Algum tempo depois, Eulália tornou-se membro do espaço seguro “toda menina é capaz”, onde se envolveu em atividades, aprendeu a fazer bolos, potes de barro e a trabalhar na lavoura, o que lhe proporcionou independência financeira. Ela aprendeu a se defender dos abusos do marido e afirmou que, para evitar qualquer tipo de violência, conversou com o companheiro sobre violência de gênero e o informou que, caso ele a agredisse, ela o denunciaria. Isso demonstra o quanto ela se empoderou. Além disso, o companheiro a proibia de usar contraceptivos, mas agora, com o conhecimento adquirido, ela conquistou a autonomia para escolher e começar a usar métodos contraceptivos a fim de evitar gravidezes indesejadas.
Agora, ela usa sua própria história como exemplo para desencorajar meninas a se envolverem em uniões precoces e utiliza o espaço seguro como meio de compartilhar sua experiência e oferecer apoio emocional a outras meninas na mesma situação.
Ela se tornou uma voz de encorajamento e inspiração, mostrando que é possível superar adversidades e alcançar o sucesso independentemente das circunstâncias. Por meio desse projeto, ela ingressou no instituto onde está cursando o ensino médio em Agricultura.



